Arte: Rede Esportiva

O clássico Bra-Pel 364 já seria atípico pelos motivos que todos nós estamos cansados de saber. Porém, mesmo que no aspecto técnico nada valesse, Bra-Pel é diferente. Envolve muita gente, e envolve paixão. No final da manhã deste sábado (1º) eu fui até a feira livre, no Parque Dom Antonio Zattera, ao lado da Boca do Lobo, e já pude constatar que todos os cuidados seriam tomados pelos órgãos de segurança: Brigada Militar e agentes de trânsito esperaram os feirantes encerrarem suas atividades, e começaram a fechar todas as adjacências, para que não houvesse nenhum tipo de aglomeração próximo ao local do jogo.

Confesso que quando vi algumas fotos do pré-jogo no estádio, deu um pouco de tristeza. Ali foi um daqueles “te liga”, no qual a gente vê que realmente o que vivemos não é brincadeira (se é que alguém não se deu conta ainda). Um Bra-Pel SEM TORCIDA! Inimaginável, se não fosse em um momento no qual o país, principalmente o Rio Grande do Sul, estão parados por conta de uma pandemia.

Sem a possibilidade de ingresso de profissionais de imprensa no estádio – a exceção eram fotógrafos, cinegrafistas e um repórter de TV – todos estavam esperando pela chegada das 14h55, horário em que a geradora de imagens liberaria o link da transmissão no GloboEsporte.com e… nada. Cinco minutos depois, o árbitro do jogo, Anderson Daronco, trilou seu apito e ninguém sabia o que acontecia. E passaram cinco, dez, 15 minutos… e nada de novo. Aos 30 minutos do primeiro tempo, o sinal foi estabelecido em condições precárias, mas ainda assim, pelos relatos nas redes sociais, poucos tiveram acesso a esse sinal. Das duas rádios comerciais que transmitiam o jogo, a Rádio Pelotense não conseguiu imagens do primeiro tempo, prejudicando o trabalho de todos profissionais. Pouco menos prejudicada, a Rádio Universidade conseguiu começar a contar a história da bola rolando a partir dos 30 minutos do primeiro tempo. Como ex-integrante de equipes de rádio, fiquei aflito em casa pelos amigos que estavam nas transmissões e não conseguiam fazer minimamente seus trabalhos.

O que (não) foi visto na tarde desse sábado foi lamentável. Um dos maiores clássicos do país foi relegado a um segundo plano, pois em um dia que a grade do PFC possivelmente tivesse horários generosos, já que a maioria dos jogos dos principais estaduais ocorrem no domingo, a empresa detentora dos direitos optou, possivelmente por contenção de despesas, por colocar a transmissão de um jogo desse tamanho no contexto histórico apenas na internet.

Por mais que não valesse nada, é preciso respeitar o clássico Bra-Pel, parafraseando um título de uma coluna em que publiquei aqui no Rede Esportiva recentemente. Faltou respeito por parte da empresa detentora dos direitos de transmissão e da FGF, não há dúvidas. Citei no Twitter, respondendo a post da própria FGF, que existe vida no interior, pois se falta dinheiro e estrutura, como na capital sobram paixão e envolvimento de pessoas, por mais que eles possam custar a acreditar. Só de Bra-Pel, temos mais de 100 anos.

Para não dizer que não falei de flores, o segundo tempo foi razoável, de novo. O Pelotas com uma ideia mais propositiva, e o Brasil agindo de maneira mais reativa. Dos três gols, todos de bola parada. E todos contaram com ajuda dos sistemas defensivos. Os gols do Pelotas foram após cobranças de escanteio de Hugo Sanches: o primeiro teve desvio de Alex Henrique, e o segundo de Ramires. Gols idênticos, que a defesa não pode permitir. O do Brasil, minutos após o Lobo abrir o placar, foi uma cobrança de falta na intermediária, a bola viajou toda a extensão da área, e Luis Felipe apareceu sozinho para completar para o fundo da rede. A defesa do Pelotas também esteve mal posicionada.

Como eu disse no pré-jogo, independente de que maneira ocorra a partida, NUNCA alguém vai achar “normal” perder Bra-Pel. E neste jogo, pelo menos o segundo tempo foi competitivo, e os dois times deram o máximo. Nos vencedores, destaco os jogadores de meio, setor onde o Lobo controlou e fez por merecer a vitória: Moisés (que é dali, mas jogou na lateral), Vini Garcia, Ramires, Hugo Sanches e Daniel Costa. No Brasil, destaco João Ananias, Luis Felipe e a personalidade do jovem Jacone.

Confesso que fiquei revoltado com tudo o que aconteceu neste sábado. E, do fundo do coração, espero que nunca mais se repita. Não merecemos isso. E que venham os certames nacionais.

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