Arte: Augusto Barros

O Pelotas está às vésperas de iniciar o Campeonato Brasileiro da Série D e decidi escrever um texto para abordar uma situação que será comum nos jogos do áureo-cerúleo: jogadores cumprindo funções em campo diferentes das posições de origem. Essas variações táticas foram marcas do trabalho do técnico Ricardo Colbachini no Internacional e já apareceram nos jogos do Gauchão e na pré-temporada para o nacional.

Primeiro, é preciso entender a enorme diferença entre posição e função. Posição é a região do campo em que o jogador mais vai ocupar dentro de uma partida, e está diretamente relacionada à plataforma tática da equipe, gerando referência de espaço para atuação do atleta em uma partida. Pensando no sistema 4-1-4-1, a posição do volante nos permite entender que ele ocupará a faixa central à frente da linha defensiva, principalmente cobrindo a chamada zona de funil.

Já função refere-se aos comportamentos ou ações que o jogador deverá cumprir dentro de campo nos diferentes momentos do jogo, com e sem a bola (ataque, defesa e suas transições), e está diretamente relacionada ao modelo de jogo do treinador para seu time.

No futebol mundial não faltam exemplos de atletas que são escalados dentro de uma posição mas acabam realizando uma função bem diferente. O mais clássico de todos é o Messi de Guardiola como falso 9. Escalado na posição de centroavante, o craque argentino tinha a função de sair da referência, arrastar a defesa adversária abrindo espaço para infiltrações e ainda organizar a equipe. Filipe Luís no Flamengo é outro exemplo, enquanto ocupa o espaço de lateral esquerdo sem a bola, com ela acaba virando um meia no corredor central esquerdo com a função de dar apoio na construção.

No Pelotas, o técnico Colbachini aponta algumas variações. A primeira delas é trabalhar com Mateus Santana como zagueiro. Santana é volante de origem, mas o treinador identificou características que tendem a potencializá-lo na linha de defesa dentro do modelo de jogo proposto. Como a ideia de Colbachini é controlar a posse e jogar com as linhas altas, Santana dá qualidade no passe vertical para romper linhas e maior velocidade para circular a bola. Também é um jogador mais veloz para correr para trás, já que a defesa acaba jogando mais adiantada. Outro ponto que o treinador deve ter identificado é a falta de intensidade nas ações durante os 90 minutos como volante. Santana, em vários momentos com a camisa do Pelotas, foi o termômetro da equipe: quando estava ligado, o Lobo crescia de rendimento, porém, quando estava apagado, o time não rendia. Na defesa, o jogador terá uma freqüência menor de ações intensas.

Outra movimentação que se observou no Gauchão é com Moisés. Posicionado na lateral direita, ele joga a maior parte do tempo como volante. Quando o Lobo tiver a bola, Moisés deverá se posicionar por dentro para ajudar na construção e proporcionar o controle da bola diante do adversário.

Já na pré-temporada, Colbachini tem ensaiado utilizar Itaqui como o meia central a partir desta movimentação de Moisés. Como o segundo acaba ocupando a faixa central do volante, o primeiro ganha liberdade para avançar e encostar nos homens de frente.

É importante entender esses conceitos para analisar o desempenho de uma equipe. É comum os treinadores serem chamados de “professor pardal” ou de inventores por colocar um jogador que sempre jogou em determinada posição, em outra. Porém, o que muitas vezes não se vê, é a função que ele irá desempenhar e o quanto isso reflete na equipe. Ter essas variações é importante em um futebol em que o tempo e o espaço são cada vez mais restritos, e o jogo é cada vez mais estudado.

Nada é garantia de resultado no futebol. Por isso não se deve analisar um trabalho somente por ele. O fundamental é observar o máximo de variáveis para entender o que está sendo feito em campo e se está sendo bem executado.

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