Arte: Rede Esportiva

Canso de ouvir do amigo Marcelo Prestes, narrador da Rádio Universidade, que sou um retranqueiro convicto, ao contrário dele, que digo gostar de um futebol faceiro, sem maiores responsabilidades defensivas. As duas definições são meias verdades: eu não sou tão retranqueiro, e o Marcelo nem tão ofensivista. Sempre achei prudente o meio termo, e não só no futebol. E é sobre isso que venho escrever aqui. Temos que falar de Hemerson Maria: ele precisa chegar em um ponto razoável para escalar o Brasil.

Nos três empates até aqui – contra Cuiabá, Ponte Preta e Oeste – ele explicou didaticamente todas as suas escolhas para as partidas. Acho louvável, tendo em vista que estamos acostumados a ouvir todo tipo de respostas dos técnicos após as partidas, menos a resposta dos problemas apresentados de fato. Maria deixou claro desde o começo: a estratégia defensiva vai continuar até o momento em que ele sentir-se seguro de que é possível propor um jogo mais vistoso. Ele ainda sublinhou que o faz pelas características dos atletas do elenco.

Em muitos pontos do seu discurso o técnico tem razão: a mudança de ideia de jogo aconteceu, e é preciso tempo para que as coisas aconteçam. Reforços chegaram, estão chegando e ainda vão chegar – pode ser que agreguem algo ao que pensa o técnico. Ele parece contar com isso. Mas Paulinho da Viola já falou que “um rio passou em sua vida”, e para Hemerson Maria não ser um rio momentâneo na história do Brasil, ele vai precisar abrir mão de algumas escolhas e convicções.

Vejamos: é preciso velocidade para jogar com ideia reativa. E se excetuarmos Jarro, que ficou fora do jogo com o Oeste por lesão, não há outro jogador para atuar na função de puxar os contra-ataques. Quem sabe Alex Ruan… quem sabe. Esse é o primeiro ponto.

A outra questão, que vejo como importante, é arriscar um pouco mais. Tudo bem que ele não se sinta à vontade, pois falta qualidade em alguns setores, mas, ainda assim, o pensamento defensivista é demasiadamente arriscado. Contra a Ponte ocorreu isso. O Brasil parecia satisfeito com o empate, e não passava da intermediária ofensiva. É a falta da vontade de ser feliz no campo. Com todo o time atrás, a Ponte teve muito espaço no campo para circular a bola de um lado e outro. Quando conseguia roubar a bola, o Xavante não a retia no ataque, e a bola voltava ao seu campo muito rapidamente. Por sorte, na ocasião, as entradas de Jarro, Luiz Henrique e Poveda melhoraram o time, o gol saiu e a virada quase aconteceu. Mas foi só.

Contra o Oeste, foi muito parecido, mesmo que, desta vez, com o acréscimo de Poveda junto de Gegê e Dellatorre. Com Poveda em campo, Gegê esteve na faixa de campo onde rende, mas, mais uma vez, ele não conseguiu jogar. O Brasil mais uma vez entrou com a mesma ideia de jogo, o que fez com que todos que acompanhavam a partida tivessem o mesmo sentimento: se desse para ganhar ótimo, mas não seria ruim empatar. O Xavante saiu na frente com Poveda, mas foi indo para trás, indo, indo… E o gol de pênalti do Oeste aconteceu no final do jogo. Um pênalti bobo, mas que existiu. E o que vi como mais impactante: do time que acabou o jogo, apenas Luiz Henrique era de característica ofensiva. A linha de cinco não foi mexida em nenhum momento, e os outros quatro de meio eram todos volantes.

Por fim, Dellatorre. Será que ele segue merecendo a vaga cativa de titular? Sei que são poucos os jogadores de frente para HM escolher. Mas será mesmo que ele vai resolver os problemas? Eu venho pedindo calma com Luiz Henrique. A pequena amostragem que ele já deu deixou boas impressões. Mas não pensem que ele poderá carregar o peso de ser o “arrumador” do time. Pelo menos, agora, não. Mas eu gostaria de ver, mesmo que por algum momento, a volta do trio Luiz Henrique, Jarro e Poveda, que gostei contra a Ponte. Se der certo de novo por alguns minutos, não dá para pensar em algo com um pouco mais de tempo?

Se não existem características no elenco para fazer com que o nível de atuação nesse esquema em que o técnico vê como o ideal para o momento ocorra, por que não pensar em um plano B? É preciso pelo menos ter um pouco mais de posse de bola.

Eu te entendo, Hemerson, ouço tuas explicações. Juro que entendo. Mas, até agora, o nível técnico apresentado por boa parte dos clubes é baixo. Dá para tentar um pouco mais.

Um comentário

  • Marco Antônio Amaral 17 / 08 / 2020 Resposta

    Concordo com sua análise. Apesar das limitações de qualidade do grupo, a preocupação defensiva do treinador está inibindo, demasiadamente, a ambição da vitória.

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