Arte: Augusto Barros

O jogo de futebol possui muitas semelhanças a um jogo de xadrez. Imagine o campo como um tabuleiro. Cada movimento de uma peça (jogador) gera um contra-movimento de outra peça adversária. O empate sem gols entre Guarani e Brasil, no último sábado (12), trouxe situações bem interessantes dentro desse tabuleiro.

O Bugre tinha uma peça que modificava o jogo a todo instante e que gerou ao Xavante grande dificuldade: o camisa 5, Deivid. A partir das movimentações dele, o Guarani conseguiu impor um princípio de jogo, a superioridade numérica.

O conceito é simples. A superioridade numérica visa incorporar mais jogadores em um determinado espaço de jogo que o adversário. Com objetivo de garantir maior número de apoios e automaticamente mais linhas de passes ao portador da bola.

O que o Guarani fazia? Dentro do 4-3-3, Deivid era o volante à frente da defesa. Ele fazia dois movimentos, por vezes criava o 3 contra 2 na saída de bola ao retornar próximo dos zagueiros, e depois avançava às costas da primeira linha do Xavante (formada por Poveda e Matheus Oliveira). Esse segundo movimento gerava um efeito de superioridade numérica nos setores ofensivos. Pois com Deivid às costas da primeira linha, o Bugre colocava três jogadores por dentro diante de dois marcadores do Brasil (Bruninho e Simião). Para compensar essa inferioridade, Danilo acabava fechando por dentro para encaixar em um dos meias (Person ou Rangel). Assim, o lateral-direito do Guarani (Cristovam) avançava e os donos da casa criavam nova superioridade em cima de Alex Ruan, já que o ponta Sávio também ocupava o setor direto.

Como defender?
O técnico Hemerson Maria explicou na coletiva pós-jogo a situação de cobertor curto (o contra-movimento). Ele poderia encaixar Poveda ou Matheus Oliveira em Deivid, mas isso deixaria os defensores sempre em superioridade numérica na hora de sair jogando. Didi e Wálber possuem boa qualidade no passe e teriam ainda mais espaço para construir.

A alternativa foi manter o 4-4-2 e aumentar a pressão nos zagueiros do Guarani. Isso funcionou nos 15 minutos finais do primeiro tempo. É claro que um Brasil menos físico e intenso na pressão – devido à ausência de Sousa – beneficiou o estilo de jogo do Guarani, mas é preciso destacar a boa mecânica que o Bugre apresentou. O time paulista conseguia tirar a bola da pressão com qualidade. Isso é mérito.

O que eu quero mostrar com essa coluna? É que os principais movimentos do Guarani não estavam com a bola, e, sim, sem ela. Deivid muitas vezes não recebeu o passe nas costas da primeira linha, mas gerou dúvidas na marcação do Brasil e fixou adversários, ocasionando a superioridade numérica. O olhar além da bola é tentar entender os movimentos das peças no tabuleiro de grama e analisar se funcionou ou não. Mesmo um jogo sem gols nos proporciona um bom espetáculo, basta saber para onde olhar.

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