Arte: Rede Esportiva

A Divisão de Acesso é uma competição tradicional no RS, especialmente no interior do Estado, onde mobiliza grande número de profissionais, envolvendo clubes e suas respectivas comunidades. Mas o futebol jogado dentro das quatro linhas não é o único valor a ser entregue . É lazer para comunidades que muitas vezes possuem poucas opções na sua cidade, é também fazer girar a economia, visto que movimenta setores como transporte, hotelaria, comunicação e arbitragem.

Longe dos holofotes e da grande mídia, os clubes que disputam esta competição lutam por um espaço na elite do futebol gaúcho, para assim chegar também a uma competição nacional e, consequentemente, ter o calendário esportivo preenchido ao longo do ano.

A luta é desigual contra clubes de tradição no cenário brasileiro ou jogos internacionais, nos quais o morador do interior pode assistir de sua sala aos melhores jogadores do planeta. Isso relega o produto Divisão de Acesso a um segundo plano, seguido por poucos abnegados, apaixonados por seus clubes, e por profissionais que se envolvem de forma mais determinante, fazendo disso o seu sustento.

Como se não bastasse todo este quadro, seus profissionais hoje estão impedidos de trabalhar.

Trabalho. Sustento. Profissão. É disso que falo. Em qualquer cidade no final de tarde observamos grande aglomeração de carros, ônibus lotados e pedestres circulando, tudo em nome do trabalho, tudo visando fazer girar a economia. A pergunta que não quer calar é por que apenas o esporte com menos apelo midiático oferece riscos? Por que só os profissionais do futebol da Divisão de Acesso e Segundona não merecem retomar suas atividades? A parada e eventual cancelamento da competição faria todo sentido se os demais setores tivessem com suas atividades suspensas, mas não é isso que estamos vendo. Muito pelo contrário, alguns clubes voltaram a treinar e jogar, inclusive saindo das fronteiras do estado, assim como recebendo delegações de outras regiões. Mas só Divisão de Acesso e Segundona, no caso específico do futebol, oferecem riscos. Me parece incoerente. Sem falar em outros setores da economia que, como citei, continuam funcionando.

A mídia da capital, especialmente, fez um grande esforço para que o futebol do RS voltasse, mas parou esta campanha inexplicavelmente sem que o futebol retornasse. Digo isso porque o futebol do RS não se compõe apenas dos oito clubes que disputam competições nacionais.

O futebol do interior é forte, tem tradição, e isso se nota em diferentes estádios, onde os jogos são um programa dominical, uma opção de lazer. Também se nota a empolgação das comunidades com o sucesso dos seus clubes próximos de conseguir o acesso, quando apoiam não só indo a campo mas também respondendo a campanhas de marketing. O futebol do interior existe, tem seu lugar na memória afetiva de quem gosta e acompanha futebol, e como tal não pode pagar o preço como se fosse o único responsável por transmitir uma doença que talvez muitos já tenham contraído, porém não há testagem. O futebol do interior não pode pagar o preço de um isolamento que outros setores não estão respeitando. Ou é para todos ou não é para ninguém.

O verdadeiro isolamento que o futebol do interior está sofrendo não é o isolamento social, mas sim aquele que visa levá-lo à invisibilidade e ao esquecimento, e disso ele não é merecedor.

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