Foto: arquivo pessoal

Eu não lembro do dia em que conheci pessoalmente o meu amigo Sérgio Cabral, que nos deixou precocemente nesta quinta. Pois era raro alguém “conhecer” o Cabral. Muitas vezes conhecê-lo era etapa vencida: já no cumprimento, as pessoas tornavam-se amigas dele. E na arte de ser AMIGO, aliás, ele era insuperável.

Do meu amigo Cabral, recordo inúmeros bordões. Dos tempos em que trabalhei com ele, na editoria de Esporte do Diário Popular, lembro alguns – por vezes acompanhados de ensinamentos. Quando fazia um convite a alguém e este rejeitava, disparava: “Qual é a pior coisa do mundo, Renan?”. “Ingratidão”, eu respondia, para então ele confirmar em tom professoral e voz inconfundível: “A pior coisa… do mundo… É a ingratidão”, dizia, provocando risadas de toda a redação.

Por outro lado, uma surpresa positiva gerava nele a vontade insaciável de dizer: “Que fase!” – este, um bordão tão dele (que Milton Leite, que nada) que batiza seu próprio livro, em vias de ser publicado.

Voltando à gratidão, é esse o sentimento que me faz chorar.

Como jornalista formado, o meu primeiro chefe foi: Sérgio Cabral.

Como jornalista premiado, recebi este reconhecimento de: Sérgio Cabral.

E só não continuo listando momentos desse modo pois alguns deles merecem ser lembrados com mais profundidade.

Em 2012, aos 21 anos, eu e os colegas fundadores do Rede Esportiva (Mateus Kerr, Maurício Mesquita, Michel Burkert e Vinícius Guerreiro) nos sentimos aptos a transmitir ao vivo o Bra-Pel 350. Tínhamos, para executar aquilo, algum conhecimento e muita vontade. Faltava, no entanto, habilidade para manejar a situação. Nunca na história algum veículo havia transmitido ao vivo, com imagens, um dos maiores clássicos do interior do país. Era um sinal, portanto, de que pôr em prática aquela situação não era tão fácil assim. E por que nós, tão jovens, conseguiríamos? A verdade é que não conseguiríamos… Não fosse o Cabral.

Sempre muito amigo e um grande incentivador dos jovens jornalistas, ele fez três ligações para resolver o assunto. Ligou para os presidentes de Brasil, Pelotas e FGF e garantiu: a transmissão sairia. Não deu outra. No dia 22 de agosto de 2012, internautas do mundo todo puderam assistir a um Bra-Pel ao vivo pela primeira vez. Brindados pelos comentários dele: Sérgio Cabral. Nada mais justo.

Dois anos depois, as atenções do mundo estavam voltadas para a Copa no Brasil. E, em nosso país, nada era mais cobiçado, àquela altura, do que um ingresso para o Mundial. Trabalhando no Esporte do DP, eu sabia que não poderia ir aos jogos. Era fundamental ficar na redação para fazer o trabalho, e por isso nem tentei comprar ingressos. Ao Cabral, com décadas de carreira, foi liberada a possibilidade de tentar acompanhar alguns jogos in loco.

Muito querido pelo amigo Murtosa, auxiliar de Felipão, Cabral não conseguiu um ingresso. Conseguiu ALGUNS ingressos para Brasil e Camarões, em Brasília.

Ao me contar o que havia conseguido, obviamente me veio o sentimento de que eu também poderia viver aquele momento presencialmente. E o Cabral também percebeu isso. Ambos sabíamos, porém, que os dois integrantes fixos da editoria de Esporte fora da redação, justamente naquele momento, era algo impossível. Foi aí que, podendo escolher quem bem entendesse para dar um daqueles concorridíssimos ingressos, ele perguntou: “Teu pai não quer ir?”.

No dia 23 de junho de 2014, recebi uma foto do meu pai, o cara que me tornou um apaixonado por futebol, direto do Mané Garrincha, assistindo in loco a um jogo de Copa do Mundo pela primeira vez. Um momento que me deixou mais feliz do que se eu estivesse lá. E tudo isso, óbvio, graças ao Cabral.

Pouco tempo atrás, por iniciativa do colega Vinícius Guerreiro, fui convidado, junto a outros colegas, a entregar (de surpresa) o Coração da Vitória ao Cabral (o nome do troféu idealizado por ele próprio e que havia nos dado anos antes). Com tal gesto, não devolvemos a ele tudo que fez por nós. Mas nos mostramos, ao menos, bons alunos. Pois “a pior coisa do mundo é a ingratidão.”

Muito obrigado por tudo, Cabral.

Renan e Coração da Vitória, dado por Sérgio Cabral (Foto: arquivo pessoal)

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